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Capitulo sete - O amor viaja de ônibus

                   

             - Pare de chorar, Cris! Amanhã seus olhos nem abrirão de tão inchados..
           - Como Ciça? Como ele pode fazer isso comigo? De onde ele foi tirar aquele pau de cutucar estrelas?
            - Ao que parece, ela estuda na sala do Gê, ela já está no Colegial, é mais velha que a gente....
             - Mais velha, mais linda, ai, vou morrer, ahahahahaha 
              -Cris, chega vai, vamos dormir, eles só dançaram, nada mais, acho que o Ademir fez isso só para se aparecer. Sabe que você está na dele e quis mostrar que é o tal..
              - Você acha isso mesmo, Ciça?
               - Acho, e se eu fosse você, dava uma gelada nele, só para ele aprender, amanhã, amanhã não, daqui a pouco, na reunião de jovens eu dava a maior bola paro o Alfredo, só para ver a cara dele..
                 - Você tem razão e você e o Gê?
                  - Bem,  o Gê é mais tímido do que eu pensava. Vamos dormir um pouco, senão amanhã não conseguiremos ir à missa. Boa noite Cris.
                 - Boa noite, Ciça.
                  Na manhã seguinte as duas foram à missa e depois á reunião de jovens, Cris fez o que Ciça sugeriu e Ademir estava atônito, não conseguia disfarçar seu aborrecimento em ver Cristina toda derretida para o lado de 
Alfredo. E Geraldo mal olhava para Ciça . Cecília sentia que Geraldo a estava observando, mas quando ela procurava seu, olhar, ele se esquivava, ele era realmente muito, muito tímido.
             Entre encontros e desencontros, as férias de julho acabaram, as aulas voltaram e,finalmente, Ademir criou coragem e pediu Cristina em namoro. Imagine uma pessoa felicíssima, essa  era Cristina.
              -Ai, amiga, eu estou tão feliz...
                -Sei... Você já falou, duzentas mil vezes..
                - Ai, ela beija tão deliciosamente bem..
                 - Sei... Você já falou, quinhentas mil vezes..
                  -Pô, Ciça, que bela amiga, hein? Você tinha que está feliz por mim, afinal, eu sou sua melhor amiga..
                   - E eu estou, Cris, mas, meu, já faz um mês que vocês estão namorando, Cris, Hahahahahah, um mês, parece que foi ontem, cara...
                      - Ai, miga, eu sei, eu sei, eu sei, mas é tão bom,  você vai ver quando for com você... Acho que vai ser logo..
                       - Sabe Cris, acho que nunca vou viver um amor como esse seu...
                         -Ah, Ciça, claro que vai, o Gê é devagar mais logo, olha o Dê demorou mais, taí ó..
                            -Mas, acho que eu não gosto do Gê como você gosta do Dê..
                              - Bobagem, deixa ele te pedir em namoro e te beijar, aí vc vai ver..
                               - Sei não..
                               - O Dê me contou e pediu para não te contar, até parece, mas, o Dê me contou, que hoje, depois da reunião na casa do 
Alfredo, o Gê vai pedir para te acompanhar ate sua casa e vai te pedir em namoro..
                                 - Verdade, Cris?
                                  - Verdade!
                                   -Ai, Ai..
          Ciça foi para casa e começou a aprontar-se para a reunião. É hoje! Ela estava agitadíssima. Não podia  passar de hoje. Ele a pediria em namora e ela, por Deus, ela aceitaria. Arrumou-se com esmero. E saiu para noite.
            Durante a noite, na reunião, Geraldo pouco olhava na direção de Cecília, ela já estava angustiada. Será que Ademir mentiu, inventou, ou a Cris estava tão feliz que estava delirando? Resolveu passar perto dele uma, duas vezes, na terceira, ele olhou para ela e sorriu, o coração de Ciça deu um tombo. Ai meu Deus, ai meu Deus. A reunião estava divertida, Alfredo no violão, todo mundo cantando, a hora avançando, o pessoal começando a se despedir. Cecília achou que era o momento de ir embora e começou a  se despedir, foi quando sentiu um toque leve nas costas, virou-se, era Geraldo, com um sorriso largo no rosto.
                  - Já vai, Cécilia?
                   - Sim, Geraldo, já são quase dez e meia e preciso estar em casa às onze...
                    - Posso te acompanhar? 
                     - Claro!
                    Ai meu Deus, ai meus Deus!
                    Os dois saíram pelo corredor estreito, seus corpos quase se tocando, estava uma noite fria, embora fosse novembro! Andaram um bom percurso calados. Esse Geraldo é mesmo muito tímido, pensou Cecília. Então ela resolveu puxar assunto.
                     - Você está no último ano do colegial, né? 
                      - Sim, estou!
                       Ai, meu Deus, ai meu Deus! 
                     -Você está adiantado, você tem dezessete anos, não é?
                       -É que eu faço dezoito no final de dezembro e você tem quinze, nê?
                        -  Isso, completo dezesseis em maio!
                         - Então, ano que vem primeiro colegial, vai fazer normal ou tecnico?
                        - Vou fazer tecnico, ja resolvi! Assim quando terminar, jã posso arranjar um emprego para pagar minha faculdade, quero fazer letras, quer ser professora de português, ou secretaria  
                            - boa,! 
                             - Sabe, né, hoje em dia é preciso correr atras do que se quer, se você ficar esperando as cosa acontecerem, vai ficar comendo poeira, não é verdade? 
                               - É.
                               Ai meu Deus ele não fala. Ai meu Deus, ai Deus.
                 Os dois subiram a ladeira assim, conversando. Ou melhor, a Cecília falando. Quando foram chegando perto da casa de Cecília, eles foram andando mais devagarinho e ele pegou no braço dela e a fez parar. E bem de frente ao portão da casa dela, ele perguntou: 
                             - Cecília, você quer namorar comigo?
                              Cécilia demorou uns segundos para processar a pergunta.
                               Ai meu Deus, ai meu Deus.  O que faço agora?  
                                Cecília estava suando frio, sabia que se dissesse sim, sabia o que viria e não poderia se esquivar do beijo, encheu-se de coragem e respondeu : 
                                - Sim.
                                   Respondeu sim e já ia virando-se para entrar, quando ele, bruscamente  a puxou pelo braço e a beijou. Foi um beijo longo! Cecília imediatamente retribuiu. Sentiu a língua grossa e molhada invadir a sua boca e instintivamente soube o fazer, soube como agir,  tanto tempo de treino serviu para alguma coisa. O beijo terminou, ela abriu os olhos e olhou para ele.
                                      - Nos vemos sábado, na casa da Cris? 
                                       - Sim! 
                                        Se despediram com um selinho, Cecília entrou e inevitavelmente pensou: 
                                         Então é isso?

Capítulo 6 - O amor viaja de ônibus.

                     Cecília estava super, hiper, mega ansiosa. Cristina tinha conseguido que ela fosse convidada para o baile na casa da Estela.
                      Nos anos 70 e 80 era muito comum os jovens  darem festinhas, bailinhos nas garagens das casas. Eram muitos divertidos. Pouca comida e muita música. As vitrolinhas e seus LPs e compact disc. As caixas  de som penduradas, pouca iluminação e pronto! Havia bailes em que rolava muita Cuba  libres, um drink à base de run, coca-cola e limão e Ri fi,  Crush com vodka, porém como o grupo de Cecília era formado por grupos de jovens, nos bailes que Cecília freqüentava não havia bebidas alcoólicas. Só refrigerante e água.
                    Cecília teve um trabalhão para conseguir a permissão de seus pais para ir ao baile. Tanto pediu, implorou que os pais acabaram deixando. Com uma condição:
                  - Cecília, está bem, você vai mais onze horas em casa! Disse dona Clarisse
                  - Que tal  onze e meia, mamãe?
                 - Onze horas e se reclamar, dona Ciça, dez e meia!
                 - Tá bom! Tá bom! 
                Cecília estava se aprontando. Não tinha muita opção em roupas,  não! Olhou o guardarroupa! Pegou uma camisa branca, uma calça jeans. Um par de sapatos pretos de salto e estava pronta! 
               Olhou-se no espelho e gostou do que viu. O sutiã branco era acentuado pela camisa branca e tornava bem atraente seus pequenos seios. A calça jeans marcava sensualmente seus quadris e os sapato alto a deixa com aparência de mais velha. 
              Passou uma camada bem fina de lápis preto nos olhos, que os tornaram enormes. Uma leve sombra verde e um brilho transparente nos lábios. Escovou várias vezes os longos cabelos castanhos claros, até que eles ficaram brilhantes.  Um par de brincos e pronto!
              Sete horas e Cecília estava a caminho da casa da Estela. No caminho ia mentalizando: "É hoje, é hoje! "
                Da esquina podia ouvir o som!  Bee  Gee cantava  Stayn  Alive.  Assim que entrou na garagem viu um grupo que dançava a coreografia no meio da garagem. Todos dançando iguaiszinhos.  Cecília correu, se posicionou junto a eles e logo estava no mesmo passo e ritmo que eles. Delícia! A música terminou e começou Saturday Night Fever e dá- lhe mais passinhos. Terminou a música e todos resolveram tomar algo para se refrescar.
               Então Cecília começou a cumprimentar um a um.
               -Cris, você está linda! 
               Cris vestia um vestido vermelho, de frente única, Cris possuía seios volumosos o que valorizava ainda mais o vestido. Ela era mais baixa que Ciça, tinha os cabelos louros bem curtinhos  e a pele bem bronzeadas  e imensos olhos azuis! Estava incrivelmente sexy.
               - Ciça, você também está uma gata! Adorei seu brinco de argolas..
               - E então, Cris? E o Dê? Já chegou? 
                - Não, ainda não! Não sei o porquê! Se ele não vier, acho que me mato!
                - Calma Cris, ainda não são nem oito horas.
                 - É, eu sei, mas isso nunca aconteceu antes, ele sempre chega primeiro. 
                  - Mas, me conta. E o Gê?
                   - Verdade! Ai, Ciça nem te conto! Falei com o Géio e ele falou para o Gê que você está afim dele.
                     - Jura? E aí?
                     - E aí que ele nem acreditou. Disse que o Géio estava tirando uma com a cara dele.
                     -É mesmo? E por quê? Por que eu não poderia estar a fim dele? 
                     - Ciça cai na real. Você pareceu um begato de tão branca. Chega ter até sardas... E ele é pardo!
                      - Pardo? Ora, ele é moreno! Gosto de morenos...
                       - Bom, amiga, agora ele já sabe, foi dada a dica, agora você precisa dar mais na cara... Para ele ter certeza que você está afim. Sabe? 
                       - Sei não, Cris! Vou ficar encarando.
                         Nesse momento  o portão se abre mais uma vez e Geraldo é o primeiro a entrar, está com um camisa pólo azul clara e jeans. Cecília olha e aprova o que vê. O azul claro cai bem para ele. Ele cumprimentando as pessoas e atrás dele surge Ademir com um morena altíssima pendurada nele. Ademir é bem alto. Tem um metro e oitenta. A morena deve ter então um metro e setenta ou setenta e cinco. Alta, morena e linda! Cristina leva um choque e nem consegue falar. Cecília percebendo o estado da amiga, a leva para o banheiro. 
                        - Cris, calma! 
                       - Calma nada, Ciça! Desgraçado! De onde ele tirou aquele pau de virar tripa? Você conhece? Da igreja ela não é.
                      - Cris, nunca a vi! Mas, deve haver uma explicação!
                       - Oh, sim! Eles estão namorando e eu vou morrer!
                       - Cris, não seja melodramática. 
                         - Melodramática? Melodramática? Ele deu a entender que me pediria em namoro hoje! 
                          - Está bem, Cris! Vamos lavar esse rosto, retocar a maquiagem e vamos voltar! Mostre a ele que você é superior! Não existe só ele de garoto..
                         - Mas, Ciça, é dele que eu gosto!
                          - Sei, sei! Agora, assim, isso! Podemos voltar! 
                           Quando elas entraram na garagem estava tocando uma música lenta, o que significava o momento de casais dançarem agarradinhos. Um rapaz convidava uma garota para dançar com ele, caso ela o recusasse, não poderia dançar, durante aquela música, com mais ninguém!  Ele podia convidar outra e se a outra aceitasse, ele poderia dançar numa boa! Já a garota que não havia aceitado a dança, só na próxima! Um baita injustiça! Mas, enfim, vivemos até hoje em um mundo chovinista! Se a moça recusasse um e aceitasse um outro logo após, durante a mesma música, ah, era briga na certa, por isso a garota não aceitava! 
                         Bom, então a chamada seleção de lenta já tinha começado. Vários casais estavam dançando. A dança consistia em ficar abraçadinhos  ao som da música lenta. O garoto envolvia a cintura da garota e ela o pescoço dele. Ficam assim, juntinhos, com os rostos coladinhos! Nesse momento é que muitos começavam a namorar. Era muito romântico. Os sussurros ao pé do ouvido.  Muitas vezes rolavam beijinhos ou beijos homéricos na frente de todos.  Enfim, era o ponto máximo do baile. Geralmente havia duas seleções. Uma de musicas nacionais, outra de internacionais. Estavam no meio da de músicas nacionais. Começou tocar "Foi Deus quem fez você com  Amelinha.

                        ♫ ♫Foi Deus que fez o céu, o rancho das estrelas, 
                                  fez também o seresteiro para conversas com ela.♫ ♫

                         É aí que Cecília sente um leve toque no ombro esquerdo, ela se vira e dá de encontro com o par de olhos mais negros que ela já tinha visto!
                        - Cecília, quer dançar comigo?
                         - Sim, Geraldo!

                          ♫ ♫    Fez a lua que prateia
                              Minha estrada de sorrisos
                              E a serpente que expulsou
                              Mais de um milhão do paraíso.♫ ♫

                              Ele pegou na mão de Cecília! Ela sentia que ele tremia. Ou seria ela? Foram para o meio da garagem, se abraçaram e seguiam o ritmo da música. Ela sentia as batidas do coração dele junto ao peito.

                               ♫ ♫   Foi Deus quem fez você;
                         Foi Deus que fez o amor;
                         Fez nascer a eternidade
                         Num momento de carinho.♫ ♫

                  Ele sussurrava palavras e se arrepiava, mas Cecília não conseguia compreendê-las.
                        
                                  ♫ ♫Fez até o anonimato
                                   Dos afetos escondidos
                                  E a saudade dos amores
                                   Que já foram destruídos.
                                   Foi Deus!♫ ♫
                    
               Cecília estava apreensiva. " e se ele resolve me beijar agora? Ai, meu Deus, ai, meu Deus"

                                ♫ ♫   Foi Deus que fez o vento
                                  Que sopra os teus cabelos;
                                   Foi Deus quem fez o orvalho
                                   Que molha o teu olhar. Teu olhar...♫ ♫

                      Geraldo apertou mais o corpo ao de Cecília, ficaram ainda mais agarradinhos, como se isso fosse possível. As mãos dele massageando as costas dela. A apreensão de Cecília aumentou

                          ♫ ♫ Foi Deus que fez as noites
                                      E o violão plangente;
                                      Foi Deus que fez a gente
                                      Somente para amar. Só para amar...  ♫ ♫

                   E assim a música termina. Cada um para um lado. Ele não disse nem uma palavra, ela também não. Ele se juntou ao grupo de rapazes e elas ao das moças.
                  "Como assim? Como assim?" Cecília não para de pensar.  "Como assim? 
                 Ele convida mais umas garotas para dançar e Cecília também dança com outros. 
                 Cecília está inconformada, mas não tanto quanto Cristina. Se para Cecília o baile foi decepcionante, para Cristina foi medonho. O pior dos pesadelos. Ademir não a convidou  Cristina nenhuma vez para dançar. Dançou o tempo todo com a garota, que a essa altura todos já sabiam o nome: Simone. 
                 Cristina já havia combinado que dormiria na casa de Cecília e ambas foram embora juntas e chegaram na casa de Cecília exatamente às onze horas.   
               Ah, esse madrugada seria longa! 

Capítulo 5 . O amor viaja de ônibus.

            Domingo. Cecília adorava  domingo! Bem, adorava até às 18:00, depois ia batendo nela uma deprê. Mas, enfim, o domingo para Cecília começava com a missa dos jovens às dez da manhã. Se fosse mais cedo... Bom, depois da missa  tinha as reuniões do Grupo de Jovens. Adorava as reuniões. Lá estudavam passagens bíblicas. Discutiam assuntos pertinentes ao bairro. Ajudavam a arrecadar alimentos para depois distribuírem  aos pobres. E,  rezavam muito. Como ela escrevia bem,  sempre era requisitada para escrever a ata. A reunião demorava uma hora e meia.  Era um ambiente super saudável. E, havia muitos garotos interessantes por lá.
             Na reunião todos ficavam em círculo para que todos pudessem ouvir o que era dito.
             Cecília ficava observando os garotos e pensava: "por qual deles eu poderia me apaixonar? "
             Olhava um a um! E, não se decidia. O Alfredo era lindo, tocava violão e nove  entre dez garotas estavam afim dele.
             "Alfredo, nem pensar" dizia Ciça. "Ele é lindo, loiro e forte, deve ter beijado um montão de garotas. É experiente demais  e vai descobrir que eu não sou. Não. O Alfredo, não! " 
             Então, Cecília continuava sua busca. 
           " O Ademir, não! Ele já tem dona. Cristina está afim dele e carinha que a melhor amiga da gente gosta, para mim é mulher! Talvez o Rogério? Ele é bem engraçado, divertido, zoeiro, talvez ele... Peraí, ele é o maior tirador de sarro que conheço,  vai que eu namoro com ele, ele me beija, descobre que eu não sei beijar e espalha para todo mundo! Oh, seria meu fim."
             Tadinha da Cecília! 
            "Eu tenho que beijar, eu preciso beijar. Todas as minhas já beijaram. No começo do ano que vem faço dezesseis, afe, e ainda sou BV. Ninguém merece, viu? Eu preciso, eu quero namorar. Quero me apaixonar que nem as mulheres dos filmes, das novelas... Ter um amor para toda vida.  Quero ter um namorado que se torne meu melhor amigo, alguém com que eu possa contar sempre. Alguém para me buscar na escola, carregar meus cadernos, pegar na minha mão, ah, como quero tudo isso... Como quero alguém que seja da Igreja. Que pense como eu... "
               Cecília continuava olhando para os rostos dos garotos.. Seus olhos pareciam  olhos de lince.  Se perguntassem para ela quais as passagens bíblicas foram lidas, com certeza ela encontraria  dificuldades em responder... Ela olhava um e mais um. Até que se fixou  em Geraldo.
                " Ah, o Geraldo. Ele não é bonito, nem nada! Mas, também não é de se jogar fora. Ele não fuma. Trabalha. Só tem 17 anos e está no último ano do colegial. E, é um pouco tímido. Não parece ter beijado muitas garotas. Não me parece do tipo que espalharia aos quatro ventos que eu não sei beijar... Pronto! Vou me apaixonar pelo Geraldo."
                Ah, Cecília, como se as coisas fossem assim! Escolher alguém para se apaixonar! Como se pudesse mandar no coração. Como se fosse possível decidir e escolher uma paixão.  Cecília tinha muito que viver e aprender! 
                 Daquele dia em diante, Cecília, disfarçadamente, começou a lançar olhares melosos para o Geraldo, sempre que tinha oportunidade flertava. Mas, Geraldo não percebia ou então muito tímido, disfarçava.  
                  Já fazia quatro domingos que Cecília ficava paquerando e nada! Foi aí que ela cansou e resolveu ser mais incisiva.
                  "Já sei o que vou fazer, vou dar um toque para Cris."
                   Na escola, na hora do intervalo, Cecília resolveu se abrir com a Cristina, sua melhor amiga.
                  -Cris, o que vc acha do Geraldo? 
                  - Além de achar o nome dele horroroso...?
                  -Ai, Cris, quero morrer sua amiga, e ademais, se o chamarmos de Gê, até que é bonitinho...
                  - Por que você está perguntando dele? 
                  - Acho que é porque estou começando a gostar dele...
                  - Jura? Verdade? Mas, que coisa mais maravilhosa... Você gostando do Gê e eu do Dê. Que joia, a melhor amiga da gente, gostando do melhor amigo, que a melhor amiga dela gosta... Ai..
                   - Nossa, Cris, que coisa mais confusa, hein? E, então? 
                   - Bom ele é meio paradão...
                   - Já percebi!
                   - Mas, nada como um belo empurrão para fazer a coisa andar... Deixa comigo... Ah, que lindo, duas amigas namorando dois amigos... Ah,  Ciça, eu amo o Dê...
                    - E o Ademir? Percebeu  que vc está afim dele? 
                    - Tenho certeza que sim... De amanhã não passa, amanhã, no bailinho da Estela, tenho certeza, ele vai pedir para eu namorar com ele...
                    - Cuidado, você pode se decepcionar...
                     -Que nada! Amanhã! E por falar em amanhã, por que você não vai ao baile comigo? 
                     - Talvez porque eu não tenha sido convidada! 
                     - Deixa que eu resolvo isso, vamos! 
                       Brmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
                      - Shhhh, lá vem esse sinal mocorongo....
                      - Nem adianta reclamar. Vamos à aula. 

Capitulo 4 - O amor viaja de ônibus.




             Cecília  estava atrasada como sempre. Descia  a ladeira que a levava à escola, como se fosse uma locomotiva desgovernada. Era praxe encontrar seu irmão Luciano  voltando da escola. 
    - Ê Ciça,  sempre atrasada...
    - Ai, Lu, não enche!
    Quando Cecília chegou na escola,  já havia dado o sinal,  por um triz que o portão não estava fechado. Todos estavam na fila à espera dos professores para começarem a rezar  a oração à Pátria. Ciça cumprimentou suas amigas e eis que do nada surge Marlene, a Leninha. Marlene, era uma vizinha da prima de Cecília, embora estivesse na sétima série e Cecília na oitava, Leninha era mais velha, era repetente, coitada. Cecília nunca fez nada de mal à ela e não se sabia o  porquê, Leninha a odiava. Vivia ameaçando "pegar" Cecília na hora da saída. Quando as duas se cruzavam, Leninha sempre dava um jeito de esbarrar em Cecília, era um verdadeiro inferno. Nesse dia, Leninha  abordou Cecília com violência, empurrou- a e foi logo dizendo:
        - E, então dona Cecília, vai ser hoje, hoje eu te pego lá fora... De hoje não passa...
        - Por que,  hein, Marlene, o que foi que eu te fiz?
       - Você nasceu...
        As amigas de Marlene gargalharam e as amigas de Cecília estavam pasmas, não entendiam tamanha agressividade gratuita.
          Cecília há muito tempo estava de saco cheio de tantas ameaças e esse dia resolver apelar.
        - Tudo bem, Marlene, se ter nascido te incomoda. Que pena, porque para mim, você ter nascido, não importa nem um pouco.
          Agora, foi a vez das amigas de Cecília gargalharem.
           Marlene ficou mais vermelha que um tomate, com certeza a coisa não acabaria nada bem. 
            - Olha aqui Cecília, eu te odeio porque você pensa que é superior. Posa de santa, mais na verdade é uma "galinha"*. A pior de todas, pensa que engana, aqui na escola posa de santinha, mas  lá na minha rua você desencanta. Pensa que eu não sei, que não  tenho olhos? Pensa que eu não vi? Você de amassos com o Cláudio, o David e João Pimenta.
               Cecília ficou estarrecida. Quantas mentiras. "Mas, espera aí".Cecília refletiu. "Minhas amigas estão todas desconfiando de mim,  está cada dia mais difícil convencê-las que não  sou mais BV.  É um tal dizer que só  beijo garotos que moram perto de casa. Mas, esta história não está colando mais. E se eu... É isso!" Cecília nem pestanejou.
               - Dona Marlene, qual é a sua, hein? O que você tem a ver com a minha vida? O que te interessa se eu fico com o Cláudio, o Davi ou João? A boca e a língua são minhas e eu beijo quem eu quiser...
                 A expressão no rosto de Marlene nesse momento é indescritível...
                - Você paga minhas contas? - continuou Cecília.
                 O queixo de Marlene caiu.
                  Nessa altura já havia se juntado uma porção de pessoas ao redor, as amigas de Cecília observavam sem manifestações.
                  - Você lava as minhas calcinhas?
                   Uma veia na garganta de Marlene saltitou.
                    - Não, né? Então trate de cuidar da sua vida, que eu cuido da minha. E, mais,  beijei todos os três e gostei, gostei muito...
                     Marlene agora já estava com os olhos mais que esbugalhados.
                    - Ah, e  se você quiser bater em mim hoje, na hora da saída, que venha, já estou cansada das suas ameaças, odeio violência, mas se você vier, saiba que posso até apanhar, mas acredite, eu vou bater e muito, sua nanica, sua kid osso...
                     Marlene ficou sem fala. Não estava entendo nada. Até hoje, com certeza, Marlene não entendeu o que  deu  em Cecília.
                    As amigas de Cecília testemunharam tudo e pararam de questioná-la. Então , era verdade que  Cecilia só não beijava garotos na escola.
                      "Ufa" pensou Cecília. "Dessa vez me dei bem."


* Naquela época, o termo "galinha" era o mesmo que "piriguete"
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